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domingo, 5 de setembro de 2010
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Filhos são reflexo do modo de vida dos pais
Pesquisa mostra como o comportamento e a conduta dos pais interferem no estilo de vida dos adolescentes
 
 
 
A importância dos pais na vida dos filhos foi tema de uma pesquisa feita com 1.485 adolescentes com idade entre 14 e 17 anos pela Universidade Federal do Paraná. O estudo confirma que a punição é ineficaz na educação, porque enfoca o erro. E joga luz sobre a conduta que os pais devem ter na educação das crianças: o ideal é saber “dialogar, dizer não, negociar, estabelecer regras e limites e pedir desculpas para seus filhos”.
A pesquisa mostra o que os filhos pensam de seus pais e suas atitudes, como o uso da violência na educação – que só alimenta problemas nas relações sociais –, aumenta a agressividade, leva à deliquência, ao abuso de drogas e afeta a autoestima. Nem mesmo as palmadas usadas para corrigir pequenas travessuras são indicadas pelos especialistas. São consideradas um fator de risco.

Segundo a psicóloga Lídia Weber, pesquisadora da UFPR e autora de dez livros, há atitudes que são essenciais na educação dos filhos. Colocar regras consistentes, lógicas e claras para a criança, oferecer modelos de comportamento adequado, incentivar a autonomia, ensinar valores morais, estar presente e ter interesse real pelos filhos, praticar a não-violência e demonstrar amor, carinho e afeto por gestos e palavras são as indicações da especialista.

Para a psicóloga Sílvia Losacco, co-coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Criança e o Adolescente (NCA) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, ao educar é preciso manter a coerência entre o que o adulto pensa, sente e faz nas regras dos relacionamentos, nas normas institucionais e na legislação. “O exemplo vem mais das atitudes e menos da verborragia usada com os adolescentes”, aconselha.
A pesquisa da UFPR revela que entre as crianças com autoestima elevada, 48% são filhos de pais presentes. Entre os que relatam baixa autoestima, 46% são filhos de pais omissos. Autoestima comprometida pode levar a comportamentos antissociais, abuso de drogas ou depressão. É claro que nem todos os filhos de pais violentos ou relapsos terão problemas no futuro. Todavia, muitos adolescentes em conflito com a lei vêm de famílias com perfis de situação de risco – violência, omissão e negligência.
Outros dados apontam que pais omissos têm mais chances de ter filhos envolvidos com mentiras, violência e drogas, o oposto do que ocorre quando os pais são participativos.
Segundo a pesquisa, entre os que mentem sempre, 68% são filhos de pais omissos contra 5% que são filhos de pais presentes. A participação dos pais tem reflexos em ações cotidianas, como a frequência escolar. Entre os que matam aula frenquentemente, 43% são filhos de pais omissos, contra 13% adolescentes criados por pais presentes.
O estudo aponta ainda que o número de usuários de drogas é menor nas famílias onde há mais atenção: 97% dos filhos de pais presentes e de autoritários declararam não ter consumido entorpecentes no último ano. O índice cai de acordo com a mudança do perfil parental: 92% dos que não usaram drogas são filhos de pais permissivos, e 82% de pais omissos. Entre os que admitiram o uso de drogas, 83% dos que consumiram crack, cocaína ou merla (derivada da cocaína) são dos filhos de pais omissos.
Longe de casa
Criado sem afeto, limites e valores, Léo (nome fictício), 17 anos, foi pego em flagrante num assalto à mão armada no começo do ano, no bairro Cristo Rei. “Fiz oito assaltos em 14 dias para comprar cocaína e também para curtir”. Ele saiu de casa aos 12 anos, por causa das brigas com o padrasto.
A reabilitação de Léo vai depender da atitude dos pais. Ele recebeu uma medida socioeducativa em meio aberto (liberdade assistida e prestação de serviços comunitários), desde que volte a viver com a família, mas o padrasto ainda resiste à ideia de recebê-lo de volta na casa em que vive com a mãe dele e oito irmãos.
Neto (nome fictício), 17 anos, vai ficar pelo menos 45 dias na Vara do Adolescente Infrator em razão do tráfico de drogas. O rapaz aprendeu a vender drogas com a avó, a mãe, o padrasto, as tias e os primos. “Eu tinha 5 anos e a minha avó já vendia crack e maconha em casa. Ela morreu e as minhas tias assumiram a boca-de-fumo”. Depois, a mãe dele virou mula do tráfico, viajando de Foz do Iguaçu (PR) a Brasília (DF). Numa das viagens, ela foi detida com o filho, com 60 quilos de maconha na bagagem. Neto sempre viveu na casa dos avós e diz não suportar o padrasto.
A turbulência em casa teve reflexos na vida escolar de Léo e Neto. Ambos abandonaram a escola na quinta série do ensino fundamental.

 

FONTE: www.gazetadopovo.com.br

Alfabetização precoce

O pai de um garoto de dois anos conta que o filho já sabe o nome de quase todas as cores e também contar até doze, tudo ensinado por ele e pela mãe. O próximo passo será ensiná-lo a escrever o nome. A mãe de uma menina de quatro anos está aflita porque teve de matricular a filha em uma escola mais em conta neste ano, que não pede lição de casa nem ensina a ler e a escrever algumas palavras, como a anterior. Ela acredita que a filha irá regredir nos estudos.

Muitos pais de filhos com menos de seis anos andam afoitos para que estes se iniciem nas letras e nos números, aprendam conteúdos específicos na escola, tenham acesso a outra língua etc. Estudos mostram que essas crianças têm alta capacidade de aprender.

Muitas escolas, atentas a esse anseio, passaram a ofertar estímulos para a alfabetização precoce. Os pais, em geral, ficam satisfeitos com esse procedimento e orgulhosos das conquistas dos filhos. Mas essa atitude é boa para as crianças?

Nossa reflexão a esse respeito não pode se basear em estudos sobre vantagens e desvantagens da alfabetização antes dos seis anos. Tal discussão está posta há tempos e não permite conclusão, já que especialistas se dividem em posições opostas e se fundamentam em pesquisas científicas. Talvez o melhor caminho seja pensar em alguns efeitos da introdução precoce da leitura e da escrita.

O primeiro deles é que um bom número dessas crianças não aprende as letras e passa a apresentar o que se convencionou chamar de dificuldade de aprendizagem. Pasmem: muitos médicos têm recebido pais torturados cujos filhos com três, quatro ou cinco anos não acompanham os colegas em tal aprendizado.

Esse fenômeno ocorre porque nem toda criança se interessa por aprender a ler e a escrever o nome dos colegas ou simplesmente não está pronta para enfrentar o processo de alfabetização. Como a escola, em geral, não tem metodologia para lidar com grupos de alunos com diferenças de ritmos e de maturidade entre si, acaba por tratar a média como norma. Assim, crianças que não se situam nessa média costumam ser suspeitas de apresentar algum distúrbio de aprendizagem.

O segundo efeito da alfabetização precoce é que ela contribui para o desaparecimento da infância. Que crianças pequenas já carreguem grande parte do peso do mundo adulto porque não conseguimos mais protegê-las dele é fato. Mas colocá-las intencionalmente nesse mundo é bem diferente.

Até os seis anos, o mais importante é brincar livremente para desfrutar o que pode da primeira infância, que dura tão pouco. Claro que algumas se interessarão pelas letras espontaneamente. Que isso seja tratado como brincadeira, então. Acelerar a aprendizagem na esperança de uma melhor formação para o futuro é ilusão e equívoco de nossa parte.

Cabe aos pais e às escolas a defesa intransigente do direito que a criança tem de ter infância, já que tudo o mais conspira para o desaparecimento dessa fase. Nossas escolhas mostram se realizamos isso ou não.
 

 

Escrito por Rosely Sayão

  

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